Ira Implacável
 
 

 

CAPÍTULO 1

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COQUETEL NO MUSEU DE ARTE MODERNA

 

Vinte de março no Rio de Janeiro.

Um Mitsubishi percorria a avenida Nossa Senhora de Copacabana, em meio ao trânsito intenso do fim de tarde. O comércio fechava suas portas e levas de pessoas dirigiam-se aos pontos de ônibus, de onde retornariam às suas casas, após mais um dia exaustivo de trabalho. Por entre os altos edifícios e os transeuntes que faziam suas últimas compras do dia, o carro seguia seu trajeto. Copacabana era um lugar interessante para se admirar, com seus letreiros iluminados e sua atmosfera cosmopolita. Sem dúvida, o bairro mais diversificado e curioso da cidade, onde o bucólico e o caótico conviviam em pé de igualdade, sem se confrontar.

Ninguém parecia notar o automóvel que driblava os ônibus e, em manobras audazes, desviava-se de tudo à frente. Havia apenas o motorista em seu interior, um vulto sombrio, opaco e difuso, por trás dos vidros revestidos de película. O destino era o MAM, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, no Parque do Flamengo, onde, naquele mesmo instante, autoridades e membros da alta sociedade e dos círculos artístico e intelectual compareciam à abertura da exposição retrospectiva do excêntrico artista plástico carioca José Elias Aboud, conhecido como Zé Abude.

Prestigiadíssimo no exterior, com exposições concorridas em Tóquio, Santiago, Milão, Barcelona, Porto, entre outras cidades, Zé Abude desembarcara no Brasil proveniente da Alemanha, onde era radicado, especialmente para a mostra de seus últimos trabalhos, entre telas a óleo, pastéis e gravuras, curiosos sob o ponto de vista artístico, pois resultavam de uma interpretação bastante peculiar do abstracionismo, ao mesmo tempo que ostentavam elementos figurativos tradicionais. A intenção deliberada do artista, a julgar por toda a temerária miscelânea de estilos e tendências tão antitéticas, era confundir a mídia e deixar pasma a classe média, no seu entender, "conservadora, puritana e reacionária". Segundo ele próprio, seu estilo seria algo como uma "perspectiva conceitual da pós-contemporaneidade" com ecos de uma "metafiguração neoabstrata desconstrutivista" por absorver nuanças de movimentos pictóricos variados como o cubismo, o concretismo e o minimalismo, além de contar com "uma inspiração cósmica regida pelos astros e discos voadores". Também era dele, a controversa série Vasos Capilares, recipientes feitos de cabelos naturais entrelaçados, cuja primeira aparição, numa individual no Fehrenbach Kunstsalon, em Düsseldorf, provocara calafrios no vetusto crítico Hermann Schuhler que, na época, definiu-a como "o retrato mais fiel da estupidez que a perversão da mente humana jamais concebeu. (...) A simbiose perfeita entre a mediocridade presunçosa e o vácuo cerebral de um débil e ridículo ególatra, que agora nos dá a prova maior de não possuir capacidade sequer para tapear o público mais tosco". Abude odiava os críticos e chegou a fornecer aos administradores do MAM uma relação das pessoas que ele desejava ver proibidas de comparecer ao vernissage, ainda que portassem convites, o que foi solenemente ignorado. Hermann Schuhler, seu vizinho de bairro em Colônia e desafeto número um, certamente acharia graça caso descobrisse que seu nome figurava no topo da malfadada listagem.

Subitamente, uma movimentação de seguranças tomou os jardins ao redor do prédio, quando a limusine preta trazendo o chanceler do Líbano e sua esposa deteve-se diante do tapete vermelho que dava as boas-vindas aos convidados. Em visita oficial ao Brasil, Edmond e Hoda Khazen fizeram questão de marcar presença no vernissage, pois não apenas Zé Abude era descendente de libaneses como também eles próprios eram proprietários de uma de suas telas mais famosas, A Sultana Adormecida, que mostrava o cair da noite na capital libanesa, Beirute.

O casal foi recebido ainda nos pilotis do museu pelo prefeito do Rio de Janeiro, que os acompanhou ao segundo andar, onde acontecia a festa. Ao serem apresentados a Zé Abude, Edmond e Hoda Khazen não puderam deixar de notar sua extravagante indumentária, que contrastava nitidamente com a sobriedade das roupas que usavam. Não bastassem a calça de veludo xadrez e o paletó laranja, Abude ainda havia tingido suas madeixas mais altas de amarelo, pintado as unhas de preto purpurinado e colocado um piercing no nariz e dois na orelha esquerda. A despeito da boa acolhida dos seus trabalhos, ele era, inegavelmente, o grande chamariz da festa, centro de todas as atenções e comentários. Depois de conversarem por vários minutos, o casal Khazen desejou-lhe boa sorte e afastou-se para percorrer a exposição.

Por toda parte ressonava o burburinho de vozes animadas, entrecortado pelo tilintar das flûtes de champanhe e por uma ou outra risada feminina mais escandalosa. Em dado momento, as portas que levavam aos terraços foram abertas, franqueando aos convivas o acesso à idílica vista noturna dos arranha-céus iluminados do Centro da cidade, embalados pelo frescor da brisa adocicada que soprava do mar. Formal, o chanceler Khazen deu atenção a todos os que o abordaram e não disfarçou sua surpresa ao descobrir que a alta sociedade carioca abrigava um número expressivo de libaneses e seus descendentes. Ele acabou comprando um dos quadros à mostra e convidando Abude para expor no Líbano no ano seguinte, o que foi aceito no ato. O evento aproximava-se do fim e tudo indicava que ele encerraria com chave de ouro a agenda cultural carioca daquele verão. Mas, a noite ainda não havia terminado.

Quatro horas depois de cruzar a avenida Copacabana, o Mitsubishi permanecia oculto nas sombras arborizadas das cercanias do museu. Às dez em ponto, quando Edmond e Hoda Khazen deixaram a exposição e entraram na limusine, um botão foi acionado e ocorreu a tragédia que daria início a um período dos mais conturbados no dia-a-dia do Oriente Médio em todos os tempos. Bem longe da exuberância tropical do Rio, o alvo era muito maior, e o mundo não tardaria a tomar conhecimento.

 


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